Resposta rápida — Segundo a TIC Educação divulgada em 4 de agosto de 2026 pelo Cetic.br, 37% das escolas brasileiras permitem o uso de inteligência artificial, mas apenas 22% possuem guia para orientar atividades de ensino, aprendizagem e gestão. Isso significa que aproximadamente 78% das escolas que já liberaram a IA não têm nenhum documento orientando esse uso — permissão sem orientação, que é o cenário de maior exposição institucional.

Há dados que descrevem adoção e dados que descrevem governança. A nova edição da TIC Educação, divulgada em 4 de agosto de 2026 pelo Cetic.br, traz os dois — e é o segundo que deveria tirar o sono de quem gere uma instituição de ensino.

Trinta e sete por cento das escolas brasileiras permitem o uso de inteligência artificial. Vinte e dois por cento têm um guia para orientar esse uso.

A conta que sai dessa diferença é o número que organiza este artigo: entre as escolas que já liberaram a IA, cerca de 78% não têm documento nenhum orientando o que pode e o que não pode ser feito.

O que exatamente a pesquisa mediu

Vale precisar o escopo antes de interpretar, porque a leitura apressada leva a conclusões erradas.

O que o dado afirmaO que o dado não afirma
Que 37% das escolas permitem o uso de IAQue nas outras 63% não há uso — apenas que não há permissão formal
Que 22% têm guia para ensino, aprendizagem e gestãoQue esse guia é bom, atualizado ou conhecido pela equipe
Que existe uma lacuna entre permitir e orientarQue a lacuna decorre de má-fé ou descuido

A segunda linha da coluna da esquerda merece atenção. A pesquisa pergunta pela existência de um guia, não pela sua qualidade. É bem possível que parte dos 22% tenha um documento genérico de duas páginas, escrito às pressas, que ninguém consultou desde que foi publicado. O número real de escolas com governança funcional de IA é, portanto, provavelmente menor que 22%.

A coordenadora da pesquisa, Daniela Costa, aponta que o avanço acelerado das tecnologias tem sido um desafio para que as unidades de ensino consigam compreender o funcionamento da IA, se adaptar e refletir criticamente sobre os impactos — e que essa dificuldade pode representar riscos ao uso crítico, responsável e ético desses recursos, além da garantia de direitos, sobretudo porque tais sistemas dependem de dados para funcionar.

Por que "permitir sem orientar" é pior que os dois extremos

A distribuição das escolas brasileiras produz três grupos, e o do meio é o mais exposto.

  • Escolas que proíbem. Posição frágil, porque o uso migra para o dispositivo pessoal e some do radar. Mas a instituição pelo menos tem uma posição declarada.
  • Escolas que permitem e orientam. Grupo pequeno. Sabem onde a IA é usada, em que atividades, com que cuidado de dados.
  • Escolas que permitem e não orientam. O grupo majoritário entre as que liberaram. Assumem a responsabilidade institucional pela adoção sem construir nenhum dos instrumentos que tornariam essa adoção defensável.

O terceiro grupo é o mais delicado por uma razão específica: permitir é um ato institucional. Uma escola que autoriza o uso de IA sem definir em que atividades, com que declaração e sob quais cuidados de dados não está apenas sem política — está com uma política implícita de que cada um decide sozinho, e essa política foi decidida por ela.

O que mudou em 2026 — Até maio deste ano, era possível argumentar que faltava parâmetro. Isso deixou de ser verdade: o MEC publicou o "Referencial para desenvolvimento e uso responsáveis de inteligência artificial na educação" em março de 2026 e o documento orientador "Inteligência Artificial na Educação Básica" em abril, e o Conselho Nacional de Educação aprovou em 11 de maio um parecer com diretrizes que classificam usos de IA por nível de risco. A ausência de guia interno não tem mais a desculpa da ausência de referência externa.

O contexto de uso que a lacuna deixa desamparado

Os números de uso já eram conhecidos e reforçam a urgência. A primeira parte do mesmo levantamento, divulgada em 2025, identificou que 70% dos estudantes do ensino médio usam ferramentas de IA generativa para pesquisas fora da escola e que 43% dos professores as integram na elaboração de atividades para os alunos.

Em paralelo, pesquisa do Observatório Fundação Itaú em parceria com o Equidade.Info, com 1.947 estudantes e 240 docentes ouvidos entre novembro e dezembro de 2024, apontou que 84% dos estudantes e 79% dos professores já haviam utilizado alguma ferramenta de IA.

Os dois levantamentos usam metodologias e recortes diferentes e chegam à mesma direção: o uso é majoritário. Cruzando com o dado de governança, o retrato fica nítido — uso majoritário, orientação minoritária.

O que uma escola no grupo dos 78% deveria fazer nas próximas semanas

Não é um projeto de tecnologia. É um trabalho de horas de equipe, e ele tem uma sequência.

  1. Verificar se existe algum documento. Comunicados avulsos, e-mails da coordenação, slides de uma reunião pedagógica. Muitas escolas têm fragmentos de política que ninguém consolidou, e consolidar é mais rápido que escrever do zero.
  2. Fazer o inventário do uso real. Consulta anônima a professores e roda de conversa com alunos, em duas semanas. Escrever regras para um uso imaginado produz documento que proíbe o que já é rotina.
  3. Levantar as ferramentas em operação, inclusive as ativadas por atualização de sistemas que a escola já contratava. Essa é a categoria mais esquecida e a de maior exposição de dados.
  4. Definir o mínimo viável. Três definições resolvem a maior parte do risco: em que atividades o aluno pode usar IA e em quais deve declarar o uso; que nenhum dado identificável de estudante entra em ferramenta não homologada; e que nenhuma nota é lançada sem revisão humana.
  5. Ler as diretrizes do CNE antes de escrever. Elas classificam usos por risco e proíbem categorias específicas. Escrever a política interna sem conhecer essa classificação significa retrabalho quando a homologação sair.

O quarto item vale um destaque: uma política de meia página com essas três definições já move a instituição do grupo dos 78% para o dos 22%, e pode ser publicada em uma semana. O documento completo pode vir depois.

O indicador que a próxima edição vai medir

Se a pesquisa repetir a pergunta no próximo ciclo, o percentual de escolas com guia de uso é o número a acompanhar — e ele deve subir, por dois motivos. Primeiro, porque a homologação das diretrizes do CNE cria uma referência que facilita a redação. Segundo, porque norma federal tende a produzir movimento: a Lei nº 15.100/2025, que restringiu o uso de celular nas escolas, alcançou 92% de implementação em um ano, segundo pesquisa nacional do MEC divulgada em 30 de junho de 2026.

A comparação entre os dois números — 92% de adesão a uma regra obrigatória e 22% de adesão a uma boa prática facultativa — diz algo relevante sobre como o setor se move. E antecipa o que provavelmente vai acontecer com governança de IA quando ela deixar de ser recomendação.

Em resumo

  • A TIC Educação divulgada em 4 de agosto de 2026 aponta que 37% das escolas brasileiras permitem uso de IA e 22% têm guia de uso.
  • Cerca de 78% das escolas que liberaram a IA não têm nenhum documento orientando esse uso.
  • A pesquisa mediu a existência do guia, não a qualidade dele: o número de escolas com governança funcional é provavelmente menor que 22%.
  • Permitir sem orientar é a posição mais exposta das três possíveis, porque permitir é um ato institucional que assume responsabilidade sem construir instrumento.
  • Desde maio de 2026 não há mais a desculpa da ausência de referência: existem o Referencial do MEC e o parecer do CNE com classificação por risco.
  • A primeira parte do levantamento apontou 70% dos alunos do ensino médio usando IA generativa e 43% dos professores integrando-a em atividades.
  • Uma política de meia página com três definições já move a escola do grupo dos 78% para o dos 22%.
  • A Lei do Celular alcançou 92% de implementação em um ano: norma obrigatória move o setor, boa prática facultativa não.

Perguntas frequentes

Quantas escolas brasileiras permitem o uso de IA?

Segundo a TIC Educação divulgada em 4 de agosto de 2026 pelo Cetic.br, 37% das escolas brasileiras permitem o uso de inteligência artificial em suas atividades. O dado indica permissão formal, não ausência de uso nas demais — nas escolas sem permissão, o uso tende a ocorrer em dispositivos pessoais, fora do alcance institucional.

Quantas escolas têm guia de uso de inteligência artificial?

Apenas 22%, segundo a mesma pesquisa. Considerando que 37% permitem o uso, isso significa que aproximadamente 78% das escolas que liberaram a IA não possuem documento orientando atividades de ensino, aprendizagem e gestão.

Por que permitir IA sem guia é um problema?

Porque permitir é um ato institucional. A escola que autoriza sem definir em que atividades, com que declaração e sob quais cuidados de dados não está sem política: está com uma política implícita de que cada pessoa decide sozinha, e essa foi uma decisão dela. Isso concentra responsabilidade sem construir os instrumentos que tornariam a adoção defensável.

Existe agora uma referência oficial para escrever a política de IA da escola?

Sim. O MEC publicou o Referencial para desenvolvimento e uso responsáveis de IA na educação em março de 2026 e o documento orientador para a educação básica em abril, e o Conselho Nacional de Educação aprovou em 11 de maio um parecer que classifica usos de IA por nível de risco, com categorias de uso proibido. O texto seguia para homologação do MEC.

Qual o mínimo que uma escola precisa definir para sair do grupo sem guia?

Três definições resolvem a maior parte do risco e cabem em meia página: em que atividades o aluno pode usar IA e em quais deve declarar o uso; que nenhum dado identificável de estudante entra em ferramenta não homologada pela instituição; e que nenhuma nota é lançada sem revisão humana. O documento completo pode vir depois.

Fontes e referências

  • Cetic.br / NIC.br — pesquisa TIC Educação, edição divulgada em 4 de agosto de 2026 pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).
  • Observatório Fundação Itaú, em parceria com o Equidade.Info — pesquisa "Percepções sobre a Inteligência Artificial na Educação", com 142 escolas, 1.947 estudantes, 240 docentes e 156 gestores ouvidos entre novembro e dezembro de 2024. Margem de erro de 2% para estudantes, 6% para docentes e 7,8% para gestores.
  • Ministério da Educação — Referencial para desenvolvimento e uso responsáveis de inteligência artificial na educação (março de 2026) e documento orientador "Inteligência Artificial na Educação Básica: caminhos para o currículo e a prática docente" (abril de 2026).
  • Conselho Nacional de Educação — parecer com diretrizes para uso de IA na educação básica e superior, aprovado em votação inicial em 11 de maio de 2026.
  • Ministério da Educação — Pesquisa Nacional 1º ano da Lei nº 15.100/2025, divulgada em 30 de junho de 2026.
  • Lei 13.709/2018 (LGPD), artigos 14 e 20.

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