Dois países apostaram, quase ao mesmo tempo, em levar IA para toda a rede pública de ensino. Um resultado ainda está em andamento com sinais positivos. O outro foi revertido em quatro meses, com processo judicial de editoras contra o próprio governo.

Enquanto o Brasil discute o referencial do MEC, as diretrizes do CNE e a tramitação do PL 2338, dois países já passaram — com resultado bem diferente entre si — pela experiência de implantar IA em toda a rede pública de ensino ao mesmo tempo. Comparar os dois casos é o exercício mais direto disponível hoje para entender o que separa uma implementação nacional de IA que funciona de uma que precisa ser revertida.

Coreia do Sul: a aposta de 2 trilhões de won que durou quatro meses

Em março de 2025, o governo sul-coreano lançou um programa de livros didáticos digitais com IA para o ensino médio, com investimento superior a 1,2 trilhão de wones (cerca de € 726 milhões) do governo, somado a mais 800 bilhões de wones (cerca de € 484 milhões) das editoras participantes.

O programa colapsou em quatro meses. Os problemas identificados foram, ao mesmo tempo, técnicos e de processo:

  • Falhas técnicas recorrentes causaram atraso em sala de aula logo nas primeiras semanas de uso.
  • Alunos relataram erro de conteúdo e dificuldade do sistema em adaptar corretamente o nível de dificuldade ao desempenho real do estudante.
  • Vulnerabilidade de segurança expôs risco à privacidade de dado de estudante.
  • O cronograma de desenvolvimento foi comprimido de forma agressiva. Segundo a deputada de oposição Kang Kyung-sook, livro didático tradicional leva 18 meses para ser desenvolvido, 9 para revisão e 6 para preparação — as versões com IA foram feitas em 12, 3 e 3 meses, respectivamente.
  • O contexto social amplificou a resistência. A Coreia do Sul já enfrentava debate público sobre dependência de tela entre jovens — um psiquiatra citado na cobertura do caso afirmou que quase um em cada dois jovens no país está em risco de dependência de smartphone —, o que tornou politicamente sensível qualquer iniciativa que aumentasse tempo de tela obrigatório em sala de aula.

Em agosto de 2025, o parlamento revogou o status obrigatório dos livros digitais, reclassificando-os como material suplementar opcional. Poucas escolas continuaram usando o sistema. O presidente eleito posteriormente reverteu a política por completo, e as editoras participantes anunciaram processo judicial contra o governo por danos.

Estônia: a aposta que começou menor e mais devagar

A Estônia lançou, também a partir de 2025, o programa "AI Leap", com abordagem estrutural bem diferente: parceria entre setor público e privado liderada pela presidência do país, usando o ChatGPT Edu como base tecnológica.

O programa atende todos os alunos e professores do ensino secundário nacional, com implementação a partir de setembro de 2025 começando pelo 10º e 11º anos — não pelo sistema inteiro de uma vez. As aplicações práticas incluem GPTs personalizados voltados a ensino e aprendizagem, apoio a feedback, suporte ao estudante e apoio ao planejamento de aula pelo professor. O acordo com a OpenAI inclui suporte técnico, compartilhamento de conhecimento, conformidade com o GDPR europeu e controles de segurança em nível empresarial.

Lado a lado

DimensãoCoreia do Sul (livro digital com IA)Estônia (AI Leap)
Escopo inicialTodo o ensino médio, de uma vezComeçou por duas séries (10º e 11º anos)
Cronograma de desenvolvimentoComprimido a um terço do tempo padrãoNão divulgado em detalhe, mas com fornecedor já maduro (ChatGPT Edu)
ObrigatoriedadeUso obrigatório desde o inícioNão especificada como obrigatória para todo o corpo docente de imediato
Parceiro tecnológicoConsórcio de editoras nacionais desenvolvendo conteúdo próprioFornecedor único já estabelecido globalmente (OpenAI)
Resultado até o momentoRevogado em quatro meses, com processo judicial em cursoEm expansão, sem reversão registrada até a publicação deste artigo

O que separa os dois casos

Três diferenças estruturais explicam boa parte do contraste de resultado. Primeiro, escopo: a Estônia começou por duas séries, não pela rede inteira — o que limita o dano de qualquer falha e permite ajuste antes da expansão. Segundo, maturidade tecnológica: a Coreia do Sul tentou desenvolver conteúdo pedagógico com IA do zero, via consórcio de editoras, em prazo comprimido; a Estônia adotou um fornecedor já maduro e testado globalmente, sem tentar reinventar a tecnologia de base. Terceiro, timing de cronograma: comprimir o desenvolvimento de material didático a um terço do prazo tradicional — como aconteceu na Coreia do Sul, segundo a própria oposição parlamentar — é um risco de qualidade reconhecido antes mesmo de qualquer componente de IA entrar na equação.

O que isso sugere para o caminho que o Brasil está seguindo

O modelo brasileiro atual — referencial orientador do MEC, diretrizes do CNE, adoção descentralizada por rede e instituição, com o PL 2338 ainda em tramitação — é estruturalmente mais parecido com a lógica de expansão gradual da Estônia do que com a aposta única e nacional da Coreia do Sul. Isso não garante resultado positivo, mas reduz um risco específico que o caso coreano deixou evidente: o de um único ponto de falha nacional, obrigatório e sem tempo de ajuste, capaz de comprometer a confiança pública no uso de IA na educação de uma só vez.

O que isso muda para quem gere a instituição

1. Tratar escopo pequeno e reversível como parte do desenho de qualquer projeto de IA, inclusive dentro de uma única escola — começar por uma série ou turma, não pela rede inteira de uma vez.

2. Priorizar fornecedor com histórico já testado em escala, em vez de tentar construir solução própria sob pressão de prazo.

3. Monitorar o cronograma de qualquer projeto com o mesmo ceticismo que a deputada sul-coreana aplicou ao comparar prazo tradicional e prazo comprimido. Prazo muito mais curto que o padrão do setor é sinal de alerta, não de eficiência.

4. Não subestimar a dimensão política e social de tempo de tela. O caso coreano mostra que uma iniciativa tecnicamente bem-intencionada pode ser politicamente inviabilizada se ignorar preocupação pública já instalada sobre uso de tela por jovens.

Em resumo

  • A Coreia do Sul lançou, em março de 2025, um programa nacional de livros didáticos digitais com IA, com investimento superior a 2 trilhões de wones somando governo e editoras; o programa foi revogado quatro meses depois, em agosto de 2025.
  • Falhas técnicas, cronograma de desenvolvimento comprimido a um terço do padrão e preocupação social com dependência de tela levaram à reversão e a processo judicial de editoras contra o governo.
  • A Estônia lançou o programa "AI Leap" a partir de setembro de 2025, usando o ChatGPT Edu, começando pelo 10º e 11º anos do ensino médio, sem reversão registrada até o momento.
  • As diferenças estruturais entre os dois casos — escopo inicial, maturidade do fornecedor tecnológico e cronograma de desenvolvimento — ajudam a explicar o contraste de resultado.
  • O modelo brasileiro de adoção gradual e descentralizada se aproxima mais da lógica da Estônia do que da aposta única sul-coreana.

Perguntas frequentes

O programa de livros digitais da Coreia do Sul foi totalmente cancelado?

Foi revogado como material obrigatório em agosto de 2025 e reclassificado como material suplementar opcional. O novo governo eleito posteriormente reverteu a política por completo, e poucas escolas continuaram usando o sistema voluntariamente.

O programa "AI Leap" da Estônia já tem resultado de aprendizagem comprovado?

Até a publicação deste artigo, o programa segue em expansão, iniciado em setembro de 2025, sem tempo de maturação suficiente para resultado de aprendizagem de longo prazo divulgado publicamente.

Por que a Estônia escolheu o ChatGPT Edu em vez de desenvolver uma solução própria?

O anúncio público da parceria destaca o acesso a um fornecedor já maduro, com controles de segurança em nível empresarial e conformidade com o GDPR europeu, como forma de reduzir o risco de desenvolver tecnologia do zero em prazo curto — exatamente o tipo de risco que se concretizou no caso sul-coreano.

Existe algum programa nacional de IA na educação em andamento no Brasil comparável a esses dois casos?

Não no mesmo formato de adoção obrigatória e centralizada. O Brasil segue um modelo de orientação nacional (referencial do MEC, diretrizes do CNE) combinado com decisão de adoção descentralizada por rede e instituição, com o Marco Legal da IA ainda em tramitação.