Resposta rápida — Pesquisa da Fundação Itaú Social divulgada no fim de 2025 aponta que 84% dos estudantes e 79% dos professores no Brasil já utilizaram alguma ferramenta de inteligência artificial. O uso, portanto, é comportamento majoritário nos dois grupos, e ocorreu em grande parte sem orientação institucional. Para a gestão escolar, a implicação prática é que o tema deixou de ser uma decisão de adoção e passou a ser uma questão de mediação e formação.

Há um tipo de dado que dispensa interpretação sofisticada porque o próprio número já organiza a decisão. É o caso do levantamento divulgado pela Fundação Itaú Social no fim de 2025: 84% dos estudantes e 79% dos professores no Brasil já utilizaram alguma ferramenta de inteligência artificial.

Quase nove em cada dez alunos. Quase oito em cada dez professores. Não é uma tendência em formação, não é um recorte de escolas com mais recursos e não é intenção de uso futuro. É comportamento presente, majoritário e distribuído entre os dois lados da sala de aula.

O que a pesquisa mede — e o que ela não mede

Vale precisar o escopo do dado antes de tirar conclusões dele, porque a leitura apressada leva a decisões erradas.

O que o dado afirmaO que o dado não afirma
Que 84% dos alunos já usaram alguma ferramenta de IAQue 84% usam com frequência ou de forma proficiente
Que 79% dos professores já usaram alguma ferramenta de IAQue esses professores usam a IA em atividade pedagógica formal
Que o uso é majoritário nos dois gruposQue o uso é adequado, orientado ou pedagogicamente produtivo
Que o comportamento existeQue a instituição sabe onde, quando e para quê

Essa distinção importa. Um percentual de experimentação alto não significa maturidade de uso — significa exposição. E exposição sem mediação é exatamente o cenário em que a instituição tem responsabilidade sem ter informação.

Por que o uso chegou antes da política institucional

O padrão de adoção não é inédito. Ele se repetiu com o acesso à internet, com o celular em sala e com as redes sociais: a tecnologia chega às mãos do estudante antes de a escola ter uma posição formada sobre ela. A diferença, no caso da IA generativa, é a velocidade — o intervalo entre disponibilidade e uso majoritário foi contado em meses, não em anos.

Três fatores explicam essa velocidade:

  • Custo de entrada praticamente nulo. Não exige instalação, licença institucional, treinamento ou equipamento específico. Um navegador e uma conta bastam.
  • Ganho imediato e perceptível. O aluno vê o resultado na primeira tentativa. Não há curva de aprendizado que desestimule.
  • Uso privado por natureza. Acontece no dispositivo pessoal, sem rastro na infraestrutura da escola e sem necessidade de autorização.

A combinação dos três produz um tipo de adoção que nenhuma política de bloqueio alcança, porque ela não passa pelo perímetro que a política controla — o mesmo movimento que marcou as três fases da IA generativa nas escolas brasileiras desde 2023.

Os cinco pontos de diferença: o dado mais acionável da pesquisa

O intervalo entre 84% e 79% costuma passar batido na leitura do relatório, e é justamente o que aponta a ação mais concreta para a gestão.

A leitura direta é que o corpo docente, embora majoritariamente já usuário, está um passo atrás dos estudantes em familiaridade com essas ferramentas. Isso configura uma inversão de assimetria incomum no ambiente escolar: o professor precisa orientar o uso responsável de uma tecnologia que parte dos seus alunos manipula com mais desenvoltura do que ele.

As consequências operacionais são específicas:

  1. Detecção fica frágil. Um professor sem repertório de uso não reconhece os padrões característicos de um texto produzido por IA, e tende a alternar entre acusação sem base e não percepção.
  2. A orientação perde credibilidade. Regras formuladas por quem não usa a ferramenta soam arbitrárias para quem usa, e regra sem legitimidade não é seguida.
  3. A oportunidade pedagógica é desperdiçada. O professor que domina a ferramenta consegue transformá-la em objeto de análise crítica em sala. Quem não domina só consegue proibir.

O custo real de ignorar um comportamento majoritário

Sem diretriz institucional, o uso de IA por estudantes não desaparece: ele fica invisível. E invisibilidade não é neutralidade — ela tem um custo mensurável na aprendizagem.

Considere dois estudantes diante da mesma tarefa de produção textual e da mesma ferramenta. O primeiro pede o texto pronto e entrega. O segundo escreve sua versão, pede à ferramenta que aponte fragilidades no argumento, avalia as sugestões e reescreve. Os dois usaram IA. Um terceirizou o raciocínio; o outro exercitou revisão crítica, que é uma competência de ordem superior à que a tarefa original exigia.

A diferença entre essas duas experiências não está na tecnologia — está na mediação. E mediação não acontece por acidente: ela existe quando a instituição decide exercê-la, define em que atividades cada tipo de uso é aceitável e treina o professor para conduzir essa conversa.

O ponto central — O risco de não ter política não é o aluno usar IA. É a instituição não ter como distinguir, ao final do ano, um estudante que aprendeu a pensar com apoio da ferramenta de um que aprendeu a delegar o pensamento a ela.

O que fazer com esse número: três movimentos

Diante de uma adoção dessa escala, tentativas de reversão são gasto de energia. O que produz resultado é reposicionar a instituição de fiscalizadora para mediadora.

1. Reconhecer o uso publicamente, em comunicação oficial

Uma comunicação a famílias e equipe pedagógica afirmando que o uso de IA é realidade — e não hipótese em debate — muda o enquadramento de toda a discussão seguinte. Enquanto a instituição trata o tema como assunto delicado, o uso permanece clandestino e a escola segue sem informação.

2. Fechar os cinco pontos com formação docente prática

O objetivo é reduzir o intervalo entre os dois percentuais da pesquisa. Formação prática significa o professor operando a ferramenta em tarefas do próprio trabalho — planejar uma sequência didática, gerar variações de exercício, produzir feedback preliminar — e não assistindo a uma apresentação sobre o que é inteligência artificial. Quanto mais confortável o professor com a ferramenta, mais qualificada a orientação em sala.

3. Abrir diálogo com os estudantes, não apenas normas sobre eles

Estudantes que participam da construção das regras de uso cumprem essas regras com mais consistência do que estudantes que as recebem prontas. Uma roda de conversa por série, com discussão de casos concretos — em que atividade usar IA é legítimo, em que atividade é fraude, e por quê — produz mais adesão do que um regulamento afixado no mural.

O que esse dado significa no médio prazo

O número da Fundação Itaú Social não descreve um comportamento de risco isolado. Descreve a nova normalidade da relação entre jovens brasileiros e tecnologia — e, por extensão, o novo ponto de partida do trabalho pedagógico. A escala do fenômeno é coerente com outro indicador: as matrículas em cursos de inteligência artificial cresceram 866% ao ano na plataforma Coursera, segundo dados da empresa, o que sugere que a demanda por competência em IA se estende muito além da educação básica.

Instituições que tratarem esses dados como ponto de partida terão mais controle sobre como essa relação se desenvolve dentro de seus muros. Instituições que os tratarem como alarme continuarão a produzir regras para um comportamento que já não conseguem observar.

Em resumo

  • Pesquisa da Fundação Itaú Social (fim de 2025) aponta 84% dos estudantes e 79% dos professores brasileiros já tendo usado alguma ferramenta de IA.
  • O dado mede experimentação, não proficiência: exposição alta sem mediação institucional é o cenário de maior risco.
  • A adoção foi rápida por três fatores: custo de entrada nulo, ganho imediato e uso em dispositivo pessoal, fora do alcance de políticas de bloqueio.
  • A diferença de cinco pontos entre alunos e professores indica assimetria invertida e é o dado mais acionável da pesquisa.
  • Sem política institucional, o uso não desaparece: fica invisível, e a escola perde a capacidade de distinguir aprendizagem de terceirização de raciocínio.
  • Três movimentos recomendados: reconhecer o uso em comunicação oficial, oferecer formação docente prática e construir as regras junto com os estudantes.

Perguntas frequentes

Qual pesquisa mostra que 84% dos alunos usam IA no Brasil?

O dado vem de levantamento da Fundação Itaú Social divulgado no fim de 2025, que apurou uso de ferramentas de inteligência artificial por estudantes e professores brasileiros. O mesmo estudo registrou 79% entre professores.

Esse percentual significa que os alunos usam IA todos os dias?

Não. O indicador mede se o estudante já utilizou alguma ferramenta de IA, ou seja, experimentação. Frequência e proficiência de uso são dimensões distintas, não capturadas por esse número, e permanecem pouco documentadas no Brasil.

Por que os professores aparecem com percentual menor que os alunos?

A diferença de cinco pontos sugere que o corpo docente, embora majoritariamente usuário, ainda está um passo atrás dos estudantes em familiaridade com as ferramentas. Isso cria uma assimetria invertida: o professor orienta o uso de uma tecnologia que parte dos alunos domina melhor.

O que uma escola deve fazer diante desse dado?

Três medidas concentram o retorno: reconhecer o uso em comunicação oficial a famílias e equipe, oferecer formação docente prática com a ferramenta aplicada a tarefas reais do professor, e construir as regras de uso em diálogo com os estudantes em vez de apenas publicá-las.

Proibir o uso de IA resolve o problema?

Não resolve, porque o uso ocorre predominantemente em dispositivos pessoais, fora da rede da escola. A proibição torna o uso invisível para a instituição sem reduzir sua frequência, o que significa manter a responsabilidade pedagógica sem manter a informação necessária para exercê-la.

Fontes e referências

  • Fundação Itaú Social — pesquisa sobre uso de inteligência artificial por estudantes e professores no Brasil, divulgada no fim de 2025.
  • Coursera — dados de crescimento de matrículas em cursos de inteligência artificial (866% ao ano).
  • Lei 13.709/2018 (LGPD), artigo 14 — tratamento de dados de crianças e adolescentes.
  • UNESCO — Orientação para IA generativa na educação e na pesquisa (2023).

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